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 Vânia Bettencourt
25.Set.2009
 

 

 Antes de mais, muito obrigado por ter-se disponibilizado para esta entrevista. Maestrina, como surgiu a música na sua vida?

A música esteve presente no meu meio familiar. O meu irmão, cerca de 16 anos mais velho, tocava saxofone e o meu pai entrou para a direcção da Banda Filarmónica Recreio dos Artistas. Além disso, desde cedo fiz parte do coro com a minha mãe e a música não me era indiferente.



 Como foi o seu percurso na música?

Aos 8 anos, entrei para a Escola de Música da Filarmónica Recreio dos Artistas com o saxofone soprano e nesta mesma altura recebia aulas de piano particulares, que me foram bastante gratificantes na leitura de pautas. Devo dizer que ainda hoje é complicado haver nas ilhas pessoas qualificadas para dar formação nesta área, imagina-se na altura como seria.



 Porquê que escolheu este instrumento, o saxofone soprano?

Devo admitir que a escolha do instrumento foi por influência do meu irmão que na altura tocava precisamente saxofone soprano.



 Mais tarde, entrou na academia e veio para o continente estudar Ensino de Música, não é verdade? Que factores influenciaram a sua decisão?

Sim, é verdade. Antes de decidir-me pela música, interessava-me um curso ligado a sociologia, pois sou uma pessoa comunicativa e gosto de interagir com as pessoas.
Porém, é curioso como o ensino estava intrínseco na minha pessoa, pois mesmo quando estudava para os meus testes, “fingia” ser professora para conseguir entender a matéria, contudo ainda não tinha descoberto a disciplina indicada para leccionar. Sem dúvida que, a musica foi a melhor escolha.



 Teve alguma dificuldade em vir estudar para o continente?

Na altura, havia uma falta de meios de comunicação que quase me impossibilitou a minha ida. Estes cursos eram muito pouco conhecidos, visto que para ensinar musica bastava ter tido formação no Conservatório. Não se sabia se havia pré-requisitos, nem mesmo a altura de inscrição foi a correcta. Com os exames nacionais acabei por ingressar na ESE de Bragança.



 Manteve as suas aulas de saxofone e piano?

Sim, claro. No primeiro ano estive numa academia de música particular e no segundo, consegui entrar para a Fundação Conservatório Regional de Vila Nova de Gaia, onde tinha aulas durante o fim-de-semana durante três anos.



 Terminou com que formação?

Com 8 anos de formação musical e o complementar de saxofone, não consegui continuar o piano, pois no Conservatório tive que optar entre os dois instrumentos dado a incompatibilidade de horários, e pela banda escolhi o saxofone.



 Enquanto permanecia no continente, qual o seu maior objectivo?

Aprender o máximo para poder levar e melhorar o nível musical da minha ilha. Sempre quis voltar.



 Onde entrou o interesse pela Musicoterapia?

A possibilidade de curar pessoas através de certos tipos de músicas, através de simples sons, fascinou-me. É quase como uma cura sobrenatural. Não existe medicação, apenas sensações e sentimentos.
Actualmente é uma óptima ferramenta para o dia a dia, cada vez mais as pessoas precisam de ter uma mente sã dado o stress e complicações que vivemos. Devíamos parar e simplesmente ouvir e relaxar. O nosso lado psicológico tem muita influência na cura de doenças e a música ajuda em muito a atingir esse equilíbrio.



 Como correu o primeiro ano de trabalho como professora?

O primeiro ano foi na ilha do Pico na Escola Cardeal Costa Nunes da Madalena onde leccionei primeiro e segundo ciclo e formei a Orquestra da Escola. Nos tempos livres trabalhei como professora da Escola de Música da Banda Lira de São Mateus, onde também tocava e substitui o Maestro cerca de 2 meses quando este, por motivos de saúde, não pôde dirigir. Foi um ano muito gratificante para mim e para aquela banda.



 Entretanto voltou para ilha, que trabalhos desenvolveu e desenvolve na sua ilha?

Na minha ilha trabalho como professora de nomeação definitiva do Quadro de Escola da Escola Básica e Secundária da Graciosa, na disciplina de Educação Musical e sendo assim trabalho com crianças desde os 2 anos de idade até ao 6º ano de escolaridade. Trabalhei na direcção pedagógica da academia, e fui Maestrina do Coro da Matriz de Santa Cruz da Graciosa. Sou Maestrina da Filarmónica Recreio dos Artistas, bem como professora da Escola de Música da mesma. Dentro da Filarmónica formei a Orquestra Ligeira e por vezes colaboro com o conjunto musical da mesma. Formei também um quarteto saxofones, porém, por motivos profissionais de vários elementos tivemos de fazer uma pausa, contudo quando voltar ao activo quero reunir e reactivar o quarteto.
Quero com isto dizer que trabalho com pessoas das mais variadas idades. E gosto muito do que faço.



 Vemos que tem uma forte ligação com o ensino, qual a sua visão do ensino da musica na actualidade?

Hoje em dia, as crianças perderam a noção de que realmente a música é uma melodia. Desde muito cedo que não ouvem música, mas apenas pensam no computador, na playstation.
Pessoalmente, como professora, gosto de colocar actividades inovadoras e diferentes, porém muitas das vezes, não lhes interessa, pois falta-lhes aquela ligação. Por isso é que me dá mais prazer trabalhar com as crianças desde a pré-primária, pois aí posso desenvolver um trabalho mais específico. Sem dúvida que o primeiro ciclo é aquele onde os alunos apreciam mais o ensino da musica, pelo menos já têm um mínimo de noção musical.



 Como classifica a aprendizagem musical nas ilhas?

O ensino da música nas ilhas é um pouco complexo, contudo tem vindo a melhorar. Antigamente apenas tínhamos professores de leste a trabalhar na academia, mesmo hoje em dia é complicado conseguir professores. Nos primeiros dois anos do meu regresso à ilha fui Directora pedagógica da Academia da Graciosa, e encarei esta realidade e dificuldade. Eram poucos os professores que procuravam estabilizar-se, os que estão normalmente não se integram, nem motivam. Acredito que, se os professores que viessem para a academia, integrassem-se na banda, com outro espírito de trabalhar e colaborassem com a ilha em geral, os jovens iriam estar mais motivados, seriam mais produtivos e adquiriam muito mais conhecimento.



 Considera que no continente o nível musical das bandas é superior ao das ilhas?

No continente as bandas tocam melhor, é verdade. No entanto, é muito natural que toquem, pois existe muitos alunos nos conservatórios com óptimos professores. Para além disso, têm diversos factores que criam um estímulo muito maior.
Nas ilhas, as bandas tocam por “amor à camisola”, as pessoas entregam-se com outra motivação e entusiasmo. Todas as pessoas que fazem o seu melhor não merecem ser criticadas, mesmo que o objectivo final não seja alcançado. Cada banda tem a sua realidade local e temos de respeita-las.



 Como surgiu o gosto pela direcção?

A direcçao da banda foi por instinto, cada vez mais assumi esta posição.
Tomo a direcção essencialmente pela minha personalidade. Sinto e deixo-me levar. Sei que ainda tenho muito que aprender e aperfeiçoar, contudo o principal é que os meus músicos entendam a minha linguagem pois ela é transmitida a pensar na sua evolução e quanto a isso não tenho dúvidas.



 Tem uma forte ligação com a sua banda, não é verdade?

Sim, gosto muito deles e tento acompanhá-los ao máximo.



 Como deve ter consciência, o meio das bandas é predominantemente masculino, qual a reacção do público quando vê a maestrina?

Simplesmente, pára tudo. Na ilha, uma vez que somos poucos habitantes, as pessoas já se “mentalizaram” antecipadamente que isto poderia acontecer. Agora, quando vou com a banda para fora da ilha, as pessoas olham com mais curiosidade, admiravam-se e chegam a voltar para trás para apreciar melhor a banda. É curioso realmente.



 Qual a maior dificuldade que sentiu ao prosseguir por uma carreira no ensino da musica nas ilhas?

O facto de estarmos num meio muito pequeno tudo fica mais limitado. Contudo, tudo se consegue alcançar e actualmente existe tanta tecnologia e meios que nos permitem sempre alargar conhecimentos.
Considero que há zonas no continente que julgo mais isoladas que as próprias ilhas, pois enquanto fazia o sacrifício durante três anos ao deslocar-me para o Conservatório, tinham muitos colegas que simplesmente não aproveitavam o que tinham. Eles viviam mais numa ilha do que eu, pois por muito que estivesse numa ilha procurava ir mais além.



 Não se arrepende de ter decidido por uma carreira musical?

Nada. Tive momentos para desistir como todas as crianças, porém agradeço aos meus pais por terem insistido comigo, senão teria perdido tudo o que tenho até hoje e isso para mim é impensável.
Desde cedo que fui habituada a ser bastante responsável e a gerir muito bem o meu tempo, isto é, tinha que conciliar os estudos com as actividades da banda, não podia sequer faltar a um ensaio.



 Relativamente à Banda Feminina, como definiria esta oportunidade?

Uma aventura.



 Porquê uma aventura?

Para já, foi uma aventura aceitar. A situação de dirigir músicos que têm conhecimento muito mais alargados do que eu é um desafio e é preciso ter um pouco de coragem, pois por norma são músicos muito críticos. Porém, quis sempre manter a minha humildade e trabalhar o melhor que sabia. Tive muita pena em não ir a Espanha com elas, pois era um projecto alem fronteiras e uma grande oportunidade. Infelizmente, por motivos de saúde foi-me impossível, mas gostava de voltar a dirigir a Banda Feminina, espero que consigamos voltar a reunir-nos apesar da dispersão geográfica de todas.



 E para o futuro, maestrina, o que nos pode dizer?

Em Novembro, tenho convite para ir ao Canadá por entremeio de uma maestrina do Canadá, de Winnipeg, para representar os Açores numa homenagem que a sua banda irá receber, precisamente na Casa dos Açores de lá.
Entretanto depois de umas “férias” forçadas bem merecidas, pretendo voltar em breve ao activo com as aulas, com a Filarmónica Recreio dos Artistas e a Orquestra Ligeira para voltar a dedicar-me à cultura musical da minha ilha.




 

Curriculum de Vânia Bettencourt

Nasceu em 30 de Setembro de 1981.

Iniciou os seus estudos musicais na Filarmónica Recreio dos Artistas em 1989 nas disciplinas de Educação Musical e Saxofone.

Em 1996 frequentou em Ponta Delgada o primeiro curso de jovens músicos, promovido pelo INATEL e pela DRAC.

Em 1996 com a criação da Escola de Música da Academia Musical da Ilha Graciosa matriculou-se em piano e educação musical.

Em 1997 matriculou-se também em Saxofone.

Em 1999 iniciou na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança o curso para Professores do Ensino Básico Variante de Educação Musical.

Em Abril de 2000 participou no 1.º encontro de Canto Gregoriano realizado na cidade de Bragança pelo Departamento Cultural do Núcleo de Eng.ª Biotecnológica.

Em Junho de 2000 frequentou com aproveitamento, na qualidade de participante o Master Class de Saxofone orientado pelo Quarteto de Saxofones Jean – Yves Fourmeau e por Francisco Ferreira, que decorreu na Academia de Música de Paços de Brandão.

Em Setembro de 2000 na cidade de Angra do Heroísmo frequentou o 3.º Curso de Jovens Músicos promovido pelo INATEL e pela DRC.

Em Agosto de 2001 frequentou um Master Class de saxofone organizado pela Delegação da Ilha Graciosa da Federação de Bandas Filarmónicas das Ilhas do Ocidente com o Quarteto Invicta Sax do Porto.

De Junho a Setembro de 2001 e de 2002 foi convidada para trabalhar como Professora de Música para a Filarmónica Recreio dos Artista no programa da OTLJ mais especificamente no sub –programa “Jovens solidários” com a designação de projecto à descoberta da música.

Em Novembro frequentou o 2º encontro de Canto Gregoriano realizado na cidade de Bragança e promovido pelo departamento de Educação Musical.

Em Janeiro de 2002 estreou-se no Quarteto de Saxofones da Filarmónica Recreio dos Artistas de Santa Cruz da Graciosa, como principal responsável pelo projecto, da qual participa em Saxofone Soprano.

Em Agosto de 2002 foi a principal responsável pela organização do concerto intitulado “ Santo Cristo, os Jovens e a Música” realizado na Igreja Matriz de Santa Cruz da Graciosa.

Em Outubro de 2002 frequentou o seminário “ Viver a Música segundo o ideal de Edgar Williems; sua importância para a criança dos nossos dias” dirigido pelo professor Jacques Chapuis, na Fundação Conservatório Regional de Gaia.

Possui diploma de formação em Musicoterapia.

Em Junho de 2003 concluiu a Licenciatura de Professores do Ensino Básico Variante Educação Musical.

Em Julho de 2003 frequentou o Master Classe de Direcção de Orquestra orientado pelo Maestro Arnold Kats promovido pelo Ensino Superior da Fundação Conservatório Regional de Gaia.

Possui o 5.º grau de saxofone e 1º ano de orquestra o 8.º grau em formação musical o 3º grau de História da Música e 2º grau de Análise e Técnicas de Composição, na Fundação Conservatório Regional de Gaia.

Também possui o 3.º grau de piano e 5º grau de Classe de Conjunto.

Possui certificado passado pela Direcção Regional da Cultura para leccionar nas Escolas de Música.

Em Dezembro de 2003 frequentou, em S. Roque da Ilha do Pico, o Seminário sobre o 4.º Quadro Comunitário de Apoio e a Situação Actual da Música Amadora nos Açores.

No ano lectivo 2003/2004 leccionou na escola Cardeal Costa Nunes, Madalena da ilha do Pico, onde também foi Maestrina fundadora da Orquestra dessa mesma escola e professora da Escola de Música da Filarmónica Lira de São Mateus.

Em Setembro de 2004 obteve o certificado de participação do 2º grau dos cursos de pedagogia musical de Jos Wuytack, na cidade do Porto.

Em Maio de 2005 deslocou-se como músico responsável do Quarteto de Saxofones, à ilha de Santa Maria para tocar nas comemorações do dia da Autonomia, a convite da Direcção Regional da Cultura.

No ano lectivo de 2004/2005 frequentou duas acções de formação relacionadas com as TIC promovidas pelo Centro de Formação de Associação de Escolas da Terceira, S.Jorge e Graciosa sendo elas «Class Server na Gestão da Aprendizagem» e «Aplicações Pedagógicas do Programa Power Point».

No mês de Outubro de 2005 frequentou a primeira cimeira para Dirigentes Associativos das Bandas Filarmónicas dos Açores, na cidade da Ribeira Grande.

No final do mês de Dezembro de 2005 frequentou um curso de Direcção Coral e Técnica Vocal.

Em Março de 2006 frequentou, na Escola Superior de Educação de Lisboa o curso orientado pelo Professor Rodrigo Fernández – Cantar, Tocar e Dançar no Ensino Básico (1º e 2º ciclo).

Nos anos lectivos 2004/2005 e 2005/2006 desempenhou o cargo de Directora Técnico - Pedagógica na Escola de Música da Academia Musical da Ilha Graciosa.

Em Setembro de 2006 frequentou a Acção de Formação “Produção e Realização de uma ópera ligeira infantil” no Conservatório da Horta.

Foi Maestrina e Formadora do curso Extra - Escolar do Coro da Matriz de Santa Cruz da Graciosa nos anos lectivos de 2005/2006 e 2006/2007.

No passado mês de Julho frequentou a Acção de Formação “ Prática do Instrumento” no Conservatório da Horta.

Actualmente é professora de Educação Musical do Quadro de Escola, da Escola Básica e Integrada de Santa Cruz da Graciosa.

É Formadora na área de Educação Musical da Federação de Bandas Filarmónicas das Ilhas do Ocidente.

É Formadora do curso do Extra- Escolar da Filarmónica Recreio dos Artistas.

É Maestrina da Filarmónica Recreio dos Artistas e da Orquestra Ligeira da mesma.

 

 
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